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A Rainha do Café Imprimir E-mail
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12 de February de 2007

A Rainha Analfabeta

Reportagem do Jornal Nariz da Índia (jul/Ago 2001)

Em geral, contamos a história de Penedo a partir da colonização dos finlandeses , que aqui chegaram em 1929. Sabemos que o casarão colonial foi comprado por eles dos monges beneditinos, e sabemos também que, antes, no século XIX, foi a sede de uma fazenda produtora de café como, aliás, eram todas as do vale do Paraíba, onde o café teve em Resende o seu centro irradiador. E foi nessa época que, segundo a historiadora Maria Celina Whately, a fazenda Penedo fez parte de uma passagem fantástica de nossa história: era uma das propriedades do conglomerado de Maria Benedita Gonçalves Martins, uma mulher analfabeta, filha de uma índia puri com um português, que se tornou a maior produtora cafeeira da época imperial, conhecida como a "Rainha do Café".

Segundo a historiadora, perdeu-se a documentação da época referente à propriedade da fazenda Penedo, mas, como Benedita era proprietária de uma série de fazendas no seu entorno, pode-se afirmar sem muita margem de erro que Penedo também pertencia a ela. E, de qualquer forma, a fazenda Penedo estava sob a influência dessa mulher, que era a maior empresária da região de Resende, foi uma das construtoras de seu progresso, e cuja história vale a pena contar, fazendo aqui um resumo dos dados publicados no livro "Mulheres Fluminenses", editado pelo Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, do governo do estado do Rio de Janeiro. O casarão da fazenda, bem conservado, funciona hoje como pousada.

O Carimbo de Ouro

Maria Benedita nasceu em 1809, um ano após a chegada de Dom João ao Brasil, filha do comendador Manoel Gonçalves Martins e da índia puri que recebera o nome de Ana Maria de Jesus para adequar-se á lei canônica vigente que regulava o casamento entre brancos e índias, Seu pai era da vila de Viana do Castelo, em Portugal, e veio para o Brasil a procura de riqueza. Apesar do título de comendador; era analfabeto e usava um carimbo de ouro para apor a sua assinatura, razão pela qual era chamado de "Manoel Carimbo".

Manoel conduzia tropas de mulas carregadas de café para cidades mineiras, em viagens arriscadas e longas. Na volta, trazia objetos em ouro e pedras preciosas, conseguindo grande lucro. Era destemido, tinha visão e ficou rico. Atribui-se a ele uma grande habilidade para lidar com os índios, o que garantia o sucesso das viagens perigosas e facilitou seu casamento com uma índia puri (tribo nômade que primeiro habitou Resende).

Manoel comprou várias fazendas e tinha prestígio também porque se dedicava à causa pública. Contribuiu decisivamente para a construção da igreja do Rosário, entre 1825 e 1827, e fundou a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário. Maria Benedita herdou tanto a fortuna quanto o espírito público do pai, no que foi ajudada também pelo marido, que era figura influente na vida social e política do município, com quem se casou aos 15 anos.

Em 1840, Manoel Carimbo construiu o primeiro sobrado da cidade na Praça da Matriz, para ser a sua residência. O sobrado existe ainda hoje, e na segunda metade do século XIX ficou conhecido como o Palacete da Rainha do Café, entrando para a história pelas festas exuberantes que Maria Benedita promovia ali, principalmente depois da morte do marido. De forma que Maria Benedita se viu, ainda em idade de mulher ativa, proprietária de diversas fazendas, entre elas - e essas com documentação comprovada - a da Serra, colada à fazenda Penedo na direção de São Paulo e a do Tanque, do outro lado do rio Paraíba, sendo que essas duas fazendas eram ligadas pelo luxo de uma linha telefônica.

A Banda dos Escravos

Maria Benedita destacava-se dos outros produtores de muitas maneiras. Com os escravos, por exemplo. A maioria dos fazendeiros se recusava a pagar a taxa de enterro para seus escravos. Já Maria Benedita fazia questão de paga-la, para que o escravo não fosse enterrado sem caixão, e ainda mandava costurar a roupa póstuma, que variava de modelo e de cor de acordo com o sexo ou a idade.

Na época da colheita do café de abril até setembro ou outubro, quando começasse a chover mais forte - os escravos eram muito exigidos no trabalho. Benedita percorria previamente todas as suas fazendas, os reunia e lhes falava, animando-os. E quando a colheita findava, ela mandava que se dessem festas, tanto nas casas-grandes quanto nas senzalas. Caprichava na distribuição de comida, liberava o fumo de rolo e fazia questão de não deixar qualquer feitor controlando a festa dos escravos, pois dizia que eles próprios saberiam conduzir-se sem confusão. Quem brigasse - criasse "quizumba" - recebia um dos castigos alternativos de Benedita, mais brandos do que o açoite como, por exemplo, trabalhar exposto ao sol a pino um ou mais dias sem beber uma gota de água durante o dia.

E essas atitudes de Benedita devem ser vistas no contexto de uma época em que o café, por ser a maior riqueza do Império, exigia demais da mão de obra escrava, tanto que há registros de que muitos fazendeiros de outras regiões, quando se desentendiam com seus escravos, os ameaçavam de serem "vendidos para o café". Era grande a violência com que eram tratados, e, assim como em Pernambuco houve a resistência do Quilombo dos Palmares, aqui no Vale do Paraíba os escravos se amotinavam nas matas de Valença, sob a liderança do negro Manoel Congo, que matou seu senhor e outras pessoas da família, não aceitando o cativeiro.

Os autores do livro em que se baseia esta matéria ressaltam que assim como a história registrou muito pouco sobre como os negros se articulavam e mantinham contato com o , núcleo de Manoel Congo, também ~ desinteressou-se sobre as bandas de música de escravos, "cujos reflexos, apesar dos anos decorridos, ainda são sentidos na música popular brasileira, notadamente o chorinho". José Ramos Tinhoráo, historiador da música brasileira, afirma: "a história do choro carioca, cuja origem remonta às bandas de escravos das fazendas fluminenses(...)"

Aí também se destaca Maria Benedita, cuja banda ficou famosa. Se por um lado ela exigia que os componentes de sua banda aprendessem música e lessem partituras - e não apenas tocassem de ouvido, como acontecia nas outras bandas - por outro, nos intervalos das apresentações cerca de 10 músicos seus se apresentavam tirando som de pentes cobertos com papel de seda, brincadeira infantil que eles levavam a sério e na qual eram incentivados por Benedita.

Contrariando a maioria dos proprietários de escravos, Benedita era contra a lei de 1835, que instituía a pena de morte no Brasil apenas para escravos que matassem seu senhor e membros de sua família. Segundo notícia publicada no jornal "Itatiaia" em março de 1887, o escravo Manoel, propriedade de Maria Benedita, acusado de haver matado o feitor da fazenda Babylônia, teve como seu curador no julgamento o Dr. Aflredo Whately e foi condenado a pena das galés perpétuas. Em plena efervescência das campanhas pró e contra a abolição a atitude de defender réus escravos recebia muitas críticas dos fazendeiros. Quando o jovem advogado abolicionista Dr. Whately retornou formado para Resende, foi Benedita quem promoveu em seu "palacete" da praça da Matriz uma calorosa recepção a ele.

Madrinha dos Estudantes

Ainda segundo o livro "Mulheres Fluminenses", Benedita "organizava campanhas, festas, quermesses e bingos, destinando o dinheiro arrecadado à causa do ensino. Doou material, principalmente madeira, emprestou escravos para reformas e construções de salas de aula. Buscou apoio, cobrou soluções de autoridades locais e da Província. Hospedou, alimentou e até pagou os salários de professores".

Resende carecia muito de médicos, e há registros de que Benedita ajudava financeiramente muitos do que iam se formar como médicos e advogados no Rio, em São Paulo. Há também casos de seminaristas irem com sua ajuda para Ouro Preto, Diamantina, Mariana e outros seminários de Minas. Quando retornavam, eram recebidos com festas no palacete.

Benedita entrou também em polêmica com a Igreja e os católicos porque defendia a tese de alguns médicos europeus e brasileiros que achava errado enterrar os mortos no interior e nos arredores das igrejas. Ela defendia a construção de um cemitério longe da zona habitada da cidade, o que acabou conseguindo, em 1832. Colaborou também decisivamente para a construção da Santa Casa de Misericórida, em 1835, que ainda hoje funciona em Resende. Certa vez acusou a Santa Casa de não querer assistir os presos que cumpriam pena na cadeia local.

Teatro e Cavalos

Benedita ajudou ainda, subscrevendo ações, à construção do Teatro Santa Rita, no largo da igreja da Matriz, em 1876. Com a inauguração da estrada de ferro D. Pedro II, ligando Resende ao Rio de Janeiro e depois a São Paulo, a vida cultural da cidade ganhou muito, movimentando o teatro, pois as companhias artísticas não precisavam mais fazer lentas e penosas viagens de carroça. 0 Santa Rita foi usado também para uma iniciativa comum na época, que eram os espetáculos filantrópicos para acudir epidemias ou obras sociais. Durante muito tempo Maria Benedita esteve à frente dessas empreitadas. 0 Santa Rita foi demolido em 1880, construindo-se em seu lugar o Cine Teatro Central, demolido já no século XX, na década de 60.

A festa mais bonita e concorrida realizada em Resende no século XIX era a Festa do Espírito Santo, celebrada no sétimo domingo depois da Páscoa, com caráter religioso e popular. Um dos destaques da festa era a cavalhada, tradição medieval que herdamos de Portugal. A cavalhada só começava quando chegava Maria Benedita acompanhada do filho Tito Lívio que, junto com a mãe, foi também o criador de um jóquei clube em Resende, onde hoje funciona a velha rodoviária Augusto de Carvalho. A idéia do hipódromo era também para estimular a criação de cavalos de raça.

E para terminar, citamos um trecho do historiador resendense Itamar Bopp descrevendo uma festa de Maria Benedita após a cavalhada do Espírito Santo: "Em 1877, terminada a Festa do Espírito Santo, a mais magnificente das festas que se celebravam na cidade, funcionavam três bandas de música de propriedade da fazenda; duas bandas ficavam no Palacete, a tocar na festa de gala, músicas deliciosas, nos salões luxuosamente decorados. As toiletes da moda, das damas, eram das imensas riquezas, numa profusão estonteante de sedas e veludos, de jóias e perfume... Era ali o centro de concentração das rodas elegantes. Ao final da festança, o refinamento do banquete servido em esplêndidas baixelas de prata e ouro e em porcelana de Sèvres, com as mais finas iguarias. À sobremesa, como sensacional novidade, foi servido, pela primeira vez, taças de sorvete..." Como se vê, até o sorvete chegou em Resende através dessa filha de índia puri com português, essa mistura que, antes ainda da chegada dos negros, já formava o embrião do que é hoje o povo brasileiro. Maria Benedita faleceu em 1881, vítima de "insulto apopléctico".

E se essa não é uma estória específica do Penedo turístico e finlandês, é uma história mais remota na qual esteve envolvida, ainda que como coadjuvante, a fazenda Penedo, cujo velho sobrado ainda hoje está de pé com suas paredes de pau a pique e madeira de lei. Atualmente funciona como pousada - a Pousada Casarão - muito bem cuidado pelo casal Fábio e Raquel, que fornecem ao hóspede boas informações sobre a história da casa.