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Penedo entra para história de uma das mais antigas tradições de Natal do mundo

O ano de 2014 foi de intensas relações bilaterais, por assim dizer, entre a Colônia Finlandesa de Penedo e a cidade de Turku, a mais antiga da Finlândia, Capital Europeia da Cultura em 2011, distante 150 quilômetros a oeste da capital do país, Helsinque.

Em outubro, Penedo recebeu o grupo Turun Kanssantanssin Ystävät, os Amigos da Dança Folclórica de Turku, que veio da Finlândia a convite do PKY (Penedon Kanssantanssin Ystävät, os Amigos da Dança Folclórica de Penedo) para alguns dias de confraternização entre estes e aqueles amantes das polkkas, valsas e jenkkas, cujo ponto alto foi uma noite de gala no Clube Finlândia, em uma edição para lá de especial do Baile Finlandês de Penedo. Agora, em dezembro, é também de Turku que chega uma mensagem de Natal também para lá de especial dirigida à colônia — aos finlandeses, descendentes, moradores de Penedo em geral, empreendedores da nossa vila e aos turistas que nos visitam na temporada de fim de ano.

Esta mensagem é histórica. Deixe-nos contar por quê.

Os 175 mil habitantes de Turku estão espalhados por uma área de 243 quilômetros quadrados que abrange os dois lados do estuário do rio Aura. Eles têm uma maneira, digamos, bem finlandesa de conviver com o acidente geográfico que antes de mais nada — antes de ruas, bairros ou códigos postais — define onde moram, onde trabalham ou os lugares que frequentam, e não surpreende que por vezes os turkulaiset, sou seja, os de Turku, tenham que explicar que não fazem nada disso na Turquia.

Em Turku, tudo quanto é endereço dito de boca começa ou termina com “este lado do rio” (em finlandês, täl pual jokke), que é o lado leste da cidade, ou com o “outro lado do rio” (tois pual jokke), o lado oeste. Simples assim, como em geral o são as coisas da vida, das mais prosaicas às mais solenes, que fazem as pessoas não esqueceram quem são, de onde vêm e o que esperam que dure para sempre.

Todos os anos, na manhã do dia 24 de dezembro, a gente de Turku que mora n’este lado do rio cruza as nove pontes sobre o Aura aos montes e praticamente ao mesmo tempo. Mais que isso: é para lá, para o outro lado do rio, que todos os anos toda a Finlândia volta as atenções quando os sinos da catedral da cidade avisam que é meio-dia do jouluaatto, a véspera de Natal. Todo o país volta-se, mais precisamente, para uma pequena varanda decorada com dois abetos natalinos no segundo andar da mansão Brinkkala, uma construção do século XVI localizada no centro histórico da cidade, onde outrora residiram governadores gerais de ocupações russas e que desde 1888 é o palco oficial onde se cumpre com retidão nórdica uma solenidade medieval, uma das tradições de Natal mais antigas no mundo, que acabou se transformando em uma das mais importantes tradições de Natal da Finlândia.

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Ao fim das badaladas na catedral, o arauto da Paz de Natal de Turku caminha até a estreita varanda, desenrola um pergaminho caligrafado, endireita-se com pompa para a circunstância e lê em voz alta uma exortação de poucas palavras e uma promessa de punição a quem lhe fizer ouvidos moucos, para delírio de uma multidão de dezenas de milhares de pessoas que se espremem felizes na velha praça do mercado, faça neve ou faça sol:

Amanhã, se Deus quiser, acontece a abençoada celebração do nascimento de nosso Senhor e Salvador.

E portanto se declara o tempo de um Natal de Paz para todos, recomendando-se devoção e comportamento que não seja outro senão o de calma e tranquilidade.

Porque aquele que rompe esta paz e viola os princípios de um Natal Pacífico mediante qualquer tipo de comportamento ilegal ou impróprio deverá, sob circunstâncias agravantes, ser responsabilizado e punido de acordo com o que a lei e os estatutos preveem para cada caso separadamente.

Por último, desejamos uma alegre festa de Natal a todos os habitantes da cidade.

‘Na Finlândia, não é Natal até que um homem diga que sim’

Finda a mensagem, o arauto enrola o pergaminho, vira-se sobre os calcanhares e desaparece mansão adentro, sem nem dizer “sem mais”. Simples assim, e mais ou menos assim desde o início do século XIV. Mas a multidão aplaude, eufórica, porque para os finlandeses a declaração do início da Paz de Natal em Turku significa a declaração do início do próprio Natal — o rico Natal finlandês, com seus ritos cheios de simbolismos, celebrações cheias de vida e mesa cheia de arroz doce com damasco e deliciosos biscoitos de canela com gengibre.

Uma reportagem publicada há alguns anos pelo jornal britânico The Independent sobre esta tradição tão antiga quanto inquebrantável não poderia ter recebido um título melhor: “Na Finlândia, não é Natal até que um homem diga que sim”. Jouko Lehmusto, que foi este homem até pouco tempo atrás, é quase tão conhecido no país do Papai Noel quanto o próprio bom velhinho da Lapônia, e não é por causa da impecável barba branca que ostenta, mas sim por ter lido a declaração da Paz de Natal em Turku ao longo de dez anos consecutivos, até se aposentar.

Seu sucessor, o atual arauto — homem de quem se espera que não hesite, gagueje ou perca o tom na hora agá, mesmo com sete séculos de responsabilidades sobre os ombros — é um finlandês de 52 anos de idade chamado Mika Akkanen, funcionário da prefeitura de Turku desde 1997. Akkanen falou com exclusividade ao Penedo.Com, por e-mail, e foi logo dizendo, antes de tudo mais, que se sente muito orgulhoso pelo fato de o prefeito da cidade, Aleksi Randell, tê-lo designado para a tarefa: “É um privilégio ter a oportunidade de ser um elo de uma cadeia longa”.

Desde 1978 a leitura da declaração da Paz de Natal em Turku vinha sendo feita pelo chefe de gabinete do prefeito, o último dos quais o próprio Jouko Lehmusto — o elo anterior da longa cadeia de arautos, para usar a analogia feita pelo próprio Akkanen. Como a atual estrutura organizacional da administração da cidade não tivesse mais a figura do chefe de gabinete, Randell entendeu que a escolha mais natural para a tarefa deveria recair sobre o chefe de protocolo da prefeitura, Akkanen, que acumula ainda a responsabilidade sobre os assuntos internacionais do município. O anúncio do sucessor de Lehmusto, o novo arauto, foi aguardado com ansiedade e, quando foi feito, o nome e o rosto de Akkanen ganharam as páginas dos jornais e apareceram na TV finlandesa, só faltando mesmo fumacinha branca saindo pela chaminé.

Mika Aakanen de pergaminho em punho e com a catedral de Turku ao fundo
O arauto da Paz de Natal de Turku, Mika Aakanen, de pergaminho em punho e com a catedral da cidade ao fundo (Fonte: Prefeitura de Turku).

“Em 2013 foi a primeira vez que cumpri esta tarefa, e é claro que procurei fazer uma boa preparação. É muito importante ler o texto da declaração em dois idiomas, o finlandês e o sueco, a um ritmo certo, ou seja, nem muito rápido, nem muito devagar. Então duas semanas antes do Natal eu começo a treinar, lendo o texto em voz alta várias vezes ao dia. Além disso, no início de dezembro temos uma reunião de planejamento técnico com o pessoal da empresa pública finlandesa de radiodifusão, a YLE. Também tive que fazer aulas especiais para a leitura do texto em sueco, ainda que eu fale o idioma muito bem. O texto da declaração é tão antiquado que eu precisei de algum treinamento”, contou-nos Mika Akkanen, dizendo ainda que, afinal, não ficou nervoso na hora agá, ao contrário: gostou e se sentiu relaxado.

Rauhallista Joulua!

O texto original da Paz de Natal de Turku se perdeu sob os escombros do tempo, bem como suas variações dos primeiros séculos da tradição. Sabe-se apenas que era muito mais extenso, com uma longa e detalhada lista de malfeitos passíveis de punições severas, proporcionais ao agravante de serem, caso fossem, cometidos durante o período natalino. Alguns desses castigos, porém, constaram no pergaminho até não muito tempo atrás. Quem violasse a Paz de Natal estava sujeito, por exemplo, a receber uma multa tão pesada que poderia ficar até o resto dos seus dias em dívida com o município.

Algumas dessas punições só foram retiradas do código penal finlandês na segunda metade do século XX, por serem consideradas, digamos, medievais. Na verdade, a declaração da Paz de Natal era algo muito comum na Idade Média em quase todas as cidades dos países nórdicos, e era justamente um instrumento dos soberanos para tentar manter a paz social, pelo menos entre a véspera de Natal e os primeiros dias de janeiro, para dar um pouco de sossego ao rei, na terra, e aos anjos, nos céus.

Hoje em dia a declaração da Paz de Natal em Turku tem a ver mais com autênticos votos de um Natal feliz e pacífico e menos com ameaçar baderneiros com os rigores da lei, ainda que os finlandeses ainda olhem torto, muito torto, para quem justamente nesta época do ano arrisca ver a Aurora Boreal nascer quadrada. Mas a verdade é que as palavras “qualquer tipo de comportamento ilegal ou impróprio deverá, sob circunstâncias agravantes, ser responsabilizado e punido” soam para os finlandeses algo tão tradicional e reconfortante quanto os versos e a melodia de “Noite de Paz”.

“Restaram poucas tradições nacionais realmente antigas na Finlândia. A declaração da Paz de Natal é uma delas. É por isso que ela é tão importante para os finlandeses. Existiam tradições semelhantes na maioria das cidades da Finlândia e da Escandinávia em geral, mas Turku foi uma das poucas que a perpetuaram até os dias de hoje. Felizmente”, diz Akkanen, referindo-se ao fato de que outros lugares também ainda fazem a declaração, como são os casos de Porvoo e Rauma — cidades finlandesas cujos casarios pitorescos e coloridos inspiraram o projeto da Pequena Finlândia e Casa de Papai Noel de Penedo –, mas nenhum sob holofotes de potência comparável aos que são apontados para a varandinha da mansão Brinkkala todos os anos na véspera de Natal.

Mika Akkanen atribui ainda às maravilhas da modernidade a consolidação da ancestral Paz de Natal de Turku em um lugar de destaque no vasto rol de tradições natalinas finlandesas:

“A declaração da Paz de Natal de Turku tem sido transmitida por rádio para toda a Finlândia já há 80 anos, e já há bastante tempo passou a ser transmitida pela TV também [inclusive para a Suécia]. Através desses canais este pequeno evento se tornou parte das tradições de véspera de Natal para a maioria dos finlandeses em todo o país. Dezenas de milhares de pessoas se reúnem na velha praça de Turku para ouvir a declaração, e o resto a assiste pela TV ou a ouve pelo rádio. A transmissão ao vivo da leitura da Paz de Natal de Turku é um dos programas de televisão que têm mais audiência na Finlândia. Além disso, agora a declaração pode ser vista através da internet em todo o mundo”.

O resultado é que uma saudação natalina tida como antiquada na maioria dos países, “Tenha um Natal de Paz!” (Rauhallista Joulua!), é na Finlândia tão popular quanto o bom e velho “Feliz Natal!” (Hyvää Joulua!).

Penedo e Turku: lugares especiais no Brasil e na Finlândia

Apenas em quatro ocasiões não aconteceu a leitura da Paz de Natal em Turku: quando da invasão e ocupação da Finlândia pela Rússia entre os anos de 1712 e 1721, durante a Grande Guerra do Norte, período ao qual os finlandeses costumam se referir como “A Grande Ira”; entre 1809 e 1815, novamente por causa de um período de dominação russa; em 1917, por causa dos ataques de uma milícia em Turku no contexto do acirramento do clima político que desembocaria na Guerra Civil Finlandesa um mês depois; e em 1939, porque menos de um mês antes da noite de Natal a União Soviética invadiu a Finlândia e era real a possibilidade de ataques aéreos por parte dos bombardeios Tupolev russos que sobrevoavam o país.

Para Mika Akkanen, não é por acaso que a declaração da Paz de Natal em Turku tenha visto tanta água passar sob as pontes do Aura, adaptando-se aos imperativos dos tempos e ganhando cada vez mais prestígio mesmo em um mundo onde as mais autênticas tradições vêm perdendo espaço para os mais rasteiros apelos de consumo:

“Eu acho que os líderes da cidade de Turku já há séculos compreenderam a força que uma tradição pode ter junto ao povo e para reforçar a identidade de uma cidade”.

E também para os negócios. Muito graças à força e à fama da declaração da Paz de Natal, Turku viu florescer toda uma “indústria” natalina que incrementa o turismo e aquece a economia local em meio ao gélido inverno nórdico, com atrações que vão desde a mítica árvore de Natal da catedral da cidade, iluminada com lâmpadas elétricas desde antes de a Finlândia se tornar independente, até uma programação natalina especial em todos os museus d’este ou d’aquele lado do rio (inclusive com oficinas de brinquedos artesanais para crianças), passando por um dos mais concorridos mercados de Natal de toda a Escandinávia, a ponto de Turku ser considerada a “cidade do Natal” em um país que tem nada mais, nada menos do que a mais concorrida casa do Papai Noel de todo o mundo, em Rovaniemi, capital da Lapônia finlandesa. Até o planetário da cidade entra no clima, exibindo em dezembro o filme “o mistério da estrela de Natal”.

E o senhor arauto já ouviu falar da Colônia Finlandesa de Penedo?

“Por força das minhas atribuições na prefeitura de Turku eu mantenho estreita cooperação com o Instituto de Migrações da Finlândia. Então eu aprendi algo sobre os imigrantes finlandeses ao redor do mundo. Também assisti a um documentário sobre Penedo exibido na TV finlandesa. A história da imigração finlandesa em Penedo é muito bonita e interessante. Espero que as pessoas de Penedo encontrem força e motivação para manter vivo o legado dos imigrantes. Isto faz de Penedo um lugar especial e diferente no Brasil, assim como a declaração da Paz de Natal faz de Turku um lugar único na Finlândia”.

O Penedo.Com, então, pediu que o senhor Mika Akkanen mandasse uma saudação especial de Natal para a Colônia Finlandesa de Penedo, e ele, muito cortês, disse que gostaria de desejar a todos em Penedo um feliz Natal com as palavras da declaração. E assim muito provavelmente pela primeira vez em 700 anos o arauto dirigiu a outro lugar — e foi a Penedo, única colônia finlandesa do Brasil — as palavras da Paz de Natal de Turku:

“Por último, desejamos uma alegre festa de Natal a todos os habitantes da cidade”.